sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Go Let It Out.

Por que entrar numa banda? Por que insistir nesse negócio? Por que não sou "normal" como todo mundo e faço uma coisa comum?

Pois é. 

Estava pensando em por que insistir nesse negócio de banda. Já fiz parte de um monte de projetos que não deram em nada, e mesmo assim, me vejo entusiasmado cada vez que ouço as músicas da banda. Ouvi de um amigo músico essa semana que ele não queria mais sair de casa e ensaiar se não fosse "valer a pena". Bom. Realmente concordei com ele, mas... Como saber se realmente vale a pena?
Fiz uma retrospectiva dos lances que eu já fiz musicalmente falando e cada um deles me ensinou algo. Ok, ok... parece um clichê, como quando você faz aquela "passagem em menor" manjada numa musica, mas é a mais pura verdade. Já toquei em orquestra por exemplo. Foi minha primeira experiência musical (se bem que eu tocava outro instrumento) e vi como é difícil lidar com um grupo em que pessoas totalmente diferentes se juntam por um objetivo nem sempre muito definido: o trompetista não estuda a musica que ele tem nas mãos, o guitarrista entorta a musica toda, o baterista é ruim de andamento, o baixista mais regula os botões do seu amplificador do que toca, sumiu a partitura das flautas, o saxofonista acha que é o Kenny G, as clarinetas reclamam do barulho dos trombones que dizem que a culpa é dos trompetes que dizem que os clarinetes são mocinhas que dizem que acham que a tuba é que tá tocando alto demais, mesmo que o cara que toca tuba não dê sinal de vida... E mesmo com esse caos, todos tem suas dinâmicas conduzidas pelas mãos de um único cara.

Numa banda aprendi como é ruim ter que depender dos outros. Um dos caras cismava de ter ataques de estrelismo e simplesmente não aparecia pra ensaiar. As desculpas iam desde o "Esqueci do ensaio" até o "Tô doente". Enfim, pura mentira. Noutra vi como um vocalista sem carisma acaba com todo um contexto musical: o guitarrista é quem apresentava as músicas, falava com a galera, fechava os contatos, fazia as músicas, enfim, o vocal era um apêndice. Numa delas, vi como a falta de bons instrumentos limitam o trabalho de um bom músico: o tecladista tocava em um teclado que se precisasse aumentar o volume ele fazia um barulho de botão de TV velha: TRAC TRAC TRAC TRAC TRAC. E isso SAÍA nos monitores de palco. Noutra aprendi que não se pode estar num lugar olhando pra outro, ou melhor, não se pode estar num trabalho mas querendo que o outro dê certo. Noutra experiência aprendi que se a música é sua, registre-a. Que as vezes tocar menos é ganhar a platéia, mesmo que isso te faça perder o respeito de um amigo que é fã de Van Halen. Entendi que nunca se deve "correr atrás" das pessoas, mas sim "correr junto". Que nunca se deve passar um mês aprontando UMA música sem pelo menos gravá-la (Acreditem, eu já fiz isso). Que as vezes fechar os olhos e sentir a música é melhor do que abrir os olhos e olhar pro seu instrumento. Que UMA música dos Beatles fala mais do que a carreira inteira de alguns virtuoses. Já passei o carnaval inteiro comendo miojo e ensaiando sem parar, já fui a MG num carro ouvindo o mesmo CD na ida e na volta, já toquei forte até que furei a pele do bumbo, já fiz músicas conceituais, músicas de dor de cotovelo, já copiei trecho de música dos outros, já ri muito de minhas próprias inabilidades musicais e sei que tapa nas costas e coisas como "Nossa! Tu toca muito, hein!" nem sempre são sinceros.

Olhando assim, parece que todas as experiências que eu tive foram ruins, e, algumas, confesso, realmente foram, mas todas essas situações me ensinaram que numa banda além de notas, atitude, vontade e trabalho, existem pessoas que você tem que aprender a confiar e respeitar, mesmo nos piores momentos.
Já vi muita coisa, mas graças a Deus ainda sou capaz de me surpreender com situações e sei em que tipo de trabalho quero estar.  Estar numa boa banda é saber que a vontade de todos é a mesma, o foco é determinado e o ambiente te motiva a não somente chegar e tocar pra cacete, mas querer olhar pros caras que estão do seu lado antes-durante-depois do show e dizer "MUITO BOM, CARAS!!!!"

Quando você disser isso sem emitir uma única palavra, saiba que você está no caminho certo.

"A música que gravei de que mais gosto? Não sei. Só posso lhe dizer isto: algumas das melhores ainda não foram gravadas".
John Coltrane. 1966




Deus, Paz, Saúde, Música e Amor pra todos.
Tiago de Souza
Quadrante. o

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